Sexta-feira, Novembro 6
Domingo, Novembro 1
Sob um céu de algodão

FOTO: Carlos Fernandes
Sob um céu de algodão e índigo, as linhas do casario entrecruzam-se com as do escasso arvoredo. O reflexo nas janelas mimetiza o cenário circundante, replicando as entrecruzadas linhas na metamorfose da luz. Das pedras da calçada chega-nos o som arrastado de passos, assoberbados pelo peso das memórias de mui remotas paragens, palmilhadas enquanto durou o alvoroço de uma vida inquieta. E consigo vêm também o cheiro das especiarias e o eco dos pregões de longínquos mercados. Aqui e agora, resta-lhes apenas o murmúrio abafado do tráfego vespertino. Mas não faz mal. Também noutras cidades as linhas do casario se entrecruzam com as do arvoredo, sob um céu de índigo e algodão.
Entardece o corpo
Carregando as memórias
De uma vida cheia
Como um livro recheado
De cheiros, sons e sabores
Actualizado por Carlos A. Silva às 17:11 0 comentários
Categorias imagens faladas
Terça-feira, Outubro 27
Sábado, Outubro 3
Além da janela

FOTO: Carlos Fernandes
O insistente zumbido do besouro dá sinal de uma azáfama inusitada. A negrura dos élitros abre-se à frágil transparência das asas, sustendo o corpo excessivo num voo errático, quase simulacro. Dir-se-ia que indaga o segredo que se oculta por detrás da janela. Que se interpela sobre a estranha disposição da cortina ou a decadente evidência da portada.
Mas eis que abruptamente se interrompe o périplo do coleóptero, que toma pelo céu o reflexo azulado na vidraça. E um gato, em paciente atalaia, irrompe da sua imobilidade e aproveita o choque fatal para garantir a refeição da tarde.
além da janela -
o lampejo na vidraça
murmura um segredo:
viandante sem destino
chega tarde, parte cedo
Actualizado por Carlos A. Silva às 01:41 1 comentários
Categorias imagens faladas
Domingo, Setembro 13
Um livro na forja

Está já em fase de produção o livro de fotografia e texto poético intitulado «Murmúr(i)os e outras imagens faladas», da autoria de Carlos A. Silva e Carlos Fernandes, numa edição da Textiverso, de que damos aqui um lampejo sobre a capa e o texto de introdução:
Os textos e as imagens que compõem este livro são resultado de uma parceria desenvolvida desde 2004 no mensário Jornal das Cortes, numa rubrica denominada «Imagens Faladas» [e no blogue «Sítio dos Haicais»]. A partir de fotos de Carlos Fernandes, Carlos Alberto Silva foi elaborando, mês após mês, textos inspirados na técnica desenvolvida por Matsuo Bashô e outros autores japoneses: primeiro um comentário em prosa, eventualmente poética, depois um poema curto, seguindo a estrutura e métrica do tanka, por vezes com rima, outras não. Os temas são tão variados quanto as fotos o permitiram: a natureza, as artes, os temas sociais, a liberdade, a voragem do tempo, a própria poesia, entre outros. À data da publicação deste volume e ao fim de cinco anos de parceria profícua, a produção atinge já cerca de sete dezenas de composições. No entanto, por motivos editorais, apenas se apresentam aqui dezanove, escolhidas entre todas as que foram publicadas no mensário cortesense. A sua ordenação não obedece a critérios cronológicos nem temáticos, apenas se tentou criar um conjunto dinâmico e diversificado, que mantenha o leitor interessado da primeira à última página. Assim seja!
Actualizado por Carlos A. Silva às 15:25 1 comentários
Categorias Notícias
Domingo, Agosto 30
Pôr do sol

Uma ave errante chocou um ovo no horizonte
e o mar todo de luz se esbraseou.
O negrume da falésia traçou um mapa
de perfil incerto no céu vermelho.
Mas eis que a noite abriu caminho,
abraçou o areal e tudo sossegou.
Apenas o sussurro das ondas ali ficou.
Actualizado por Carlos A. Silva às 23:18 0 comentários
Categorias género livre
Quarta-feira, Agosto 19
Traço de união

FOTO: Carlos Fernandes
Há momentos em que os limites físicos da casa são incapazes de conter o transbordante turbilhão da poesia. Dir-se-ia que um animal acossado, a quem falta o ar, subjugado num estreito reduto, eclode na metamorfose das sombras. Para lá da opacidade das paredes, procura alento na vastidão do horizonte, numa ânsia indubitável de desafogo. E, num salto, lança-se na lonjura das cordilheiras, a construir pontes sobre o vazio fundeado no âmago das multidões.
Ergue-se uma ponte
Entre o meu e o teu olhar
- Fugaz turbilhão
Num sorriso caloroso
Feito traço de união
Actualizado por Carlos A. Silva às 20:46 0 comentários
Categorias imagens faladas
Não é preciso

Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.
Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.
Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.
Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.
Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.
Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.
Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.
Actualizado por Carlos A. Silva às 04:00 0 comentários
Categorias género livre
Sábado, Agosto 1
Contraluz

FOTO: Carlos Fernandes
Aninhadas na fundura da carne, numa quietude que nada parece perturbar, as palavras detêm-se, mudas e serenas. Nem a bravata do vento, nem o desassossego das marés, nem a inclemência das tempestades as demove da sua invisível e imóvel existência. Mas vem uma certa inclinação do sol, um peculiar revérbero do astro-rei, um contraluz engendrado do intenso conflito entre a claridade e a sombra e logo o peito se abre à debandada. E as palavras, como vento na seara, fazem soar o tropel das sílabas, rumorejando ao entardecer.
dormem as palavras
nas profundezas do peito
- em doce apatia
basta o sol em contraluz
logo acorda a poesia
Actualizado por Carlos A. Silva às 22:17 1 comentários
Categorias imagens faladas
Domingo, Julho 5
o olhar do pássaro

FOTO: Carlos Fernandes
Era um pássaro com olhos de céu. Neles morava o brilho do sol e o rumor da folhagem num dia de vento, o rasto ondulante do rio lambendo a planície, o vigor de uma canção alegre, o ténue perfume de um gole de água fresca numa tarde de Verão.
O céu nos olhos do pássaro não tinha margens, nem muros, nem grades, nem limites de qualquer espécie. Era um céu aberto, sem nuvens, sem mancha nem mácula.
O pássaro com olhos de céu aprendera no silêncio a mais requintada das melodias. Imóvel no seu poleiro, ensaiava a vertigem do voo no infinito da paisagem.
num voo errante -
paira sobre o horizonte
o olhar do pássaro
traz em si a melodia
delicada do silêncio
Actualizado por Carlos A. Silva às 14:09 0 comentários
Categorias imagens faladas
Segunda-feira, Junho 15
A sombra do aço

FOTO: Carlos Fernandes
O amplexo dos cabos sustém a gigantesca espínula que aguilhoa o dorso íngreme da serra, arreigando à terra a avidez vertical do lucro. Corrompendo a sua natural disposição. Domando-a, como um cavalo selvagem transformado em triste muar de carga.
Já a força bruta das máquinas lhe devorou, a pouco e pouco, os flancos, no rasgão obsceno das pedreiras. E o desmazelo dos homens a transmutou em mero pátio de despejos.
Assim se engendra um progresso que todos sabem falso. Feito da ambição perdulária de quem não tem amanhãs.
A sombra do aço
marca a ilharga da serra
- qual metal em brasa
desdizendo a evidência
de que o mundo é a nossa casa.
Actualizado por Carlos A. Silva às 03:39 0 comentários
Categorias imagens faladas
Sábado, Maio 23
Actualizado por Carlos A. Silva às 22:57 1 comentários
Categorias haicais
Segunda-feira, Maio 11
Domingo, Maio 3
A flor da glicínia
O labor humano talhou a pedra e forjou o ferro. Mãos calosas deram feição aos materiais informes, armando-os numa delicada mas sólida construção. Não tardou que a ousadia da glicínia a recobrisse de vida, numa amálgama de caules, gavinhas, folhas e flores. Num fecundo abraço se reencontram o natural e o humano. E, nele, todas as primaveras se exaltam em jubiloso hino.
véstia violeta
sobre um corpo perfumado
- a flor da glicínia -
qual donzela adormecida
num abraço enamorado
Actualizado por Carlos A. Silva às 20:30 0 comentários
Categorias imagens faladas
Domingo, Março 29
Para além do horizonte

FOTO: Carlos Fernandes
O que nos rodeia mais de perto, achamos que conhecemos como a palma da nossa mão. Porque ignoramos ostensivamente o que não vislumbramos num apressado relance. E idealizamos para além do horizonte uma vida de descoberta e aventura. Uma vida sempre adiada, mas nunca cumprida, porque pura dissonância. E quantos mundos incógnitos se agitam, aqui e agora, debaixo dos nossos pés, à distância de um gesto que no-los anuncie: a efervescência das formigas entre os sulcos da casca do pinheiro; o espanto colorido de uma flor que desabrocha; a coreografia errática do voo das abelhas; a sinfonia matinal das aves despertando o dia… Um horizonte além do horizonte, mesmo aqui ao pé.
Na linha do horizonte
- O destino é lá!
Abalamos de viagem
Deixando o corpo cá.
Actualizado por Carlos A. Silva às 17:32 0 comentários
Categorias imagens faladas




